Wednesday, June 6, 2007

Pequenas e Médias Empresas em Portugal


Causas e consequências do encerramento das PME no nosso país


As pequenas e médias empresas constituem uma camada extremamente heterogénea do tecido produtivo nacional, sendo caracterizadas por uma grande instabilidade e por estarem presentes em todos os sectores da economia nacional.
Em muitas regiões do nosso país, sobretudo no interior, são muitas vezes as pequenas e médias empresas juntamente com as autarquias locais os únicos dinamizadores e impulsionadores da actividade económica.
As mais de 290 mil PME activas no nosso país até finais de 2004 eram responsáveis por mais de metade do volume de negócios realizado em Portugal (aproximadamente 163,5 milhões de euros), para além de serem responsáveis pela manutenção de mais de 2 milhões de empregos (3/4 do emprego privado). Estes valores reflectem claramente a importância destas empresas enquanto factor de crescimento da economia nacional.
É assim de fácil compreensão o impacto e a gravidade das consequências socio-económicas decorrentes do encerramento destas empresas no nosso país.



As pequenas e médias empresas, devido às suas condicionantes em termos de dimensão e projecção, têm dificuldades estruturais quanto à sua capacidade financeira, de organização e gestão, o que as torna algo vulneráveis relativamente às empresas de grandes dimensões. Contudo, as pequenas e médias empresas continuam a ser uma das principais alavancas da economia nacional, contribuindo em grande medida para o PIB e para a taxa de emprego em Portugal.
O crescente fenómeno do encerramento das PME em Portugal afecta gravemente a economia. De acordo com Luísa Vasconcelos, docente da Universidade Fernando Pessoa, “em Portugal este fenómeno afecta a economia a curto prazo e de forma muito pesada, o que significará uma perda em termos industriais e de tecido produtivo, mas significa, sobretudo, o desemprego de camadas populacionais que lamentavelmente não terão ainda, em determinados sectores, a formação suficiente para transitar para outros sectores produtivos.”


Para Luísa Vasconcelos, a forma de contrariar esta tendência seria “fundamentalmente a instituição de uma cultura de empreendedorismo que tem que ser retomada ou desenvolvida.” Segundo a docente universitária, “a função empresarial portuguesa ainda tem uma grande evolução a fazer se se quiser tornar numa função empresarial inovadora, diferenciadora e moderna. Aquela função empresarial que não se souber adaptar irá, por certo, ver a sua pequena ou média empresa encerrar.”


Rafael Rodrigues, Engenheiro Geotécnico, teve uma empresa vocacionada para as infra-estruturas e para trabalhos de construção civil, a qual encerrou há uns tempos atrás.
Quanto às causas do encerramento, o Engenheiro explica: “comecei a perceber que ocupava muito mais do meu tempo a correr para os bancos do que a executar trabalhos da minha área específica, o que de alguma forma contribuiu para um desânimo cada vez maior. A minha vocação de engenheiro, estava a ser preterida e estava a levar-me para uma função de gestor. Então decidi por opção própria encerrar a empresa.”


Um caso totalmente diferente é o de Luís Miguel, que tem o 12º ano de escolaridade e tinha uma empresa de transportes marítimos para os arquipélagos, a qual teve de encerrar. Luís explica os motivos que o levaram a esta decisão: “Ora bem, eu tive que encerrar a empresa devido a dois motivos essenciais: as dívidas acumuladas ao longo dos anos, as quais eu não podia suportar; e a forma de negócio, que era a compra de produtos a 60 e a 90 dias, os quais tinham que ser pagos a pronto.”


Todos sabemos que o Governo é muitas vezes um apoio decisivo para a manutenção ou o encerramento destas pequenas e médias empresas. Mas nem Rafael Rodrigues nem Luís Miguel receberam ou procuraram apoio do Governo, contudo, por razões distintas.
Relativamente a ter recebido apoio governamental, Rafael declara que: ”Não, nunca. Nem eu próprio recorri a nenhuma ajuda para contrariar o encerramento, dado que foi uma opção pessoal.”
Já Luís Miguel, confessa que: “Não procurei ajuda, mas também não recebi ajuda alguma.”


Entretanto, surge a ocupação profissional após terem encerrado as suas empresas. Rafael Rodrigues imediatamente conseguiu um lugar numa empresa de construção civil e obras públicas, já de maior dimensão, ocupando um cargo compatível com a sua função. Luís Miguel também conseguiu um emprego na Staples Office Center, na qual desempenha o cargo de operador de loja.


Formação, tecnologia e inovação


É um facto que o grau de formação académica ou profissional dos empresários e dos trabalhadores que constituem a empresa é um factor relevante para o sucesso e progresso da mesma. “naturalmente, para a empresa funcionar, é sempre preciso pessoal administrativo, preferencialmente vocacionado também para a área técnica. Tinha duas pessoas no escritório, uma que fazia o trabalho administrativo, outra que tinha o curso profissional técnico. Mas portanto, eram cursos técnicos de formação média. Depois tinha os operários, que tinham em, regra geral, o nono ano, ou seja, a escolaridade obrigatória.”, explica o engenheiro. Entretanto, na empresa de transportes de Luís Miguel, este refere que: “Os trabalhadores da minha empresa poderemos diferenciar em dois grupos, um sendo os administrativos, cuja maior parte tinha o 12º ano completo. Depois tínhamos os operadores normais, cuja maior parte deles tinha o 9º ano, e muitos nem o 9º ano tinham.”


Nos dias de hoje, a aposta por parte das empresas na tecnologia e em requisitos para a internacionalização são factores cada vez mais necessários e indispensáveis para essas mesmas empresas poderem evoluir e serem competitivas no mercado.
Em que medida as PME nacionais apostam na tecnologia e em requisitos para a internacionalização? Luísa Vasconcelos responde: “Depende muito do sector, da empresa e do empresário. Nós temos exemplos de competência e capacidade de inovação muito importantes, seja no tipo de sectores associados às novas tecnologias, seja nos sectores tradicionais.”
Neste aspecto, Rafael Rodrigues afirma que: “A tecnologia utilizada na altura era actual, a empresa não me exigia mais.” Confessa ainda que: “nessa altura não tinha ambição de me internacionalizar, por duas razões fundamentais: uma delas é porque tinha aqui um mercado de trabalho extremamente interessante; a segunda razão era a própria dimensão da empresa.” No caso de Luís Miguel: “Não, a minha empresa era uma empresa virada para o mercado interno, e a nossa grande aposta eram os arquipélagos.”


Contudo, a diferenciação e inovação do produto ou serviço são também factores importantíssimos para o sucesso das empresas. São factores cada vez mais explorados com o objectivo de fidelizar mercados e clientes, e assim fazer evoluir o volume de negócio.
Luísa Vasconcelos explica-nos a relação entre a diferenciação do produto relativamente ao sucesso das pequenas e médias empresas em Portugal: “se não houver essa diferenciação, nos dias de hoje, o pequeno e médio empresário português não terá capacidade para entrar nos mercados internacionais. Não é possível para Portugal manter um padrão de crescimento como teve durante os últimos vinte ou trinta anos, baseado nos baixos custos de produção. Portugal não é capaz, hoje em dia, de competir com países como a China ou a Índia, que têm custos de produção baixíssimos.”
Quanto a isto, Rafael Rodrigues afirma que: “naquela altura, a inovação no sector não era algo significativo e eu não me tornaria mais competitivo se apostasse nas novas tecnologias. O que distinguiu o nosso serviço dos outros foi fundamentalmente, a competência técnica, a rapidez de execução e a qualidade do serviço que apresentávamos aos nossos clientes.”
Já Luís Miguel refere que, na sua empresa: “as diferenças poder-se-á dizer que eram poucas, mas uma delas era o tratamento do cliente como um amigo de longa data. A relação da empresa com os clientes dispensava formalidades, prezava antes por um entendimento cordial e uma relação de amizade.”


Exemplos reais


No entanto, apesar de todas as consequências económicas já referidas decorrentes do encerramento das PME, as consequências sociais são também bastante graves, devido à eliminação dos postos de trabalho dessas empresas e ao consequente desemprego de milhares de trabalhadores.
Eduardo Pereira trabalhava na empresa de Rafael Rodrigues, mas este caso correu de forma diferente. “Quando a empresa encerrou ninguém ficou desempregado. O sr.engenheiro conseguiu postos de trabalho para todos os funcionários na empresa para onde se mudou e onde ainda estamos.” Outro caso bem diferente é o de José Cardoso, antigo trabalhador da empresa de transportes de Luís Miguel: “Eu fiquei cerca de dois ou três meses sem emprego, tentei duas vezes numas empresas perto de casa, mas não havia nada. Um dia fui com um amigo à empresa onde ele trabalhava e consegui lá um emprego.”


Vimos assim em que medida este fenómeno afecta Portugal e os portugueses. No entanto, existem formas de o contrariar. É necessário investir na formação e qualificação, apostar na tecnologia e na diferenciação dos nossos produtos e serviços. É importante melhorar a eficácia das empresas nacionais e incentivar a expansão das mesmas no mercado, trabalhando em conformidade com esses objectivos.

No comments: