Wednesday, June 6, 2007

Vinho do Porto


O Néctar dos Deuses


O Vinho do Porto é um clássico, conhecido e apreciado em todo o mundo. É um vinho produzido exclusivamente na região demarcada do Douro (a região demarcada de vinhos mais antiga do mundo), envelhecido e exportado na cidade do Porto, à qual deve a sua designação. A elevada qualidade das uvas, assim como as excelentes características agro-climáticas da região, conferem ao Vinho do Porto as suas inconfundíveis características de sabor, corpo e aroma.
O Vinho do Porto tem sido elogiado e aclamado como nenhum outro vinho, e a sua personalidade distinta coloca-o entre as bebidas com mais classe e melhor reputação em todo o mundo. Falar do Porto, é falar do néctar que devido ao seu nome deu a conhecer ao mundo não só este fabuloso vinho, mas também a própria região e o nosso país, Portugal.


Um pouco de História


A História do Vinho do Porto é muito rica e também bastante antiga. Susana é guia de visitas nas caves Cálem, uma das caves mais conceituadas de produção de Vinho do Porto, que exporta actualmente para 35 países.
Susana conta-nos a História do Vinho do Porto, quando surgiu e como se desenvolveu: “A História do Vinho do Porto teve início no séc. XVII com as invasões bárbaras no norte de Portugal. Após a delimitação da região demarcada do Douro em 1756, altura em que o Marquês do Pombal fundou a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, os ingleses iniciaram a comercialização do Vinho do Porto em troca da produção de têxteis, daí que o Vinho do Porto tenha adoptado a sua designação precisamente pela localização da cidade de onde eram feitas as exportações. Um dos principais mercados na altura era o Brasil, com o qual se faziam várias trocas comerciais. Eles levavam o vinho e traziam madeiras exóticas para fabrico de mobiliário, entre outros produtos. O séc. XIX foi até hoje o maior período de crise para os vinhos do Douro, o que justificou um ajuste na regulamentação de qualidade a que são sujeitos. Contudo, a qualidade dos vinhos manteve-se inabalável e essa crise foi superada. Desde então, o Vinho do Porto tem um lugar de prestígio tanto no mercado interno como no mercado internacional, tendo um lugar de relevo nos quadros das exportações portuguesas.”


O processo de produção


O processo de produção do Vinho do Porto é bastante particular, divergindo grandemente do processo de produção dos restantes vinhos. Susana explica-nos todo este processo, referindo as características e as mutações decorrentes de todas as variáveis incluídas: “O processo de produção do Vinho do Porto é bastante diferente do processo de produção de um vinho de mesa. O vinho de mesa tem um processo de fermentação bastante mais longo do que o Vinho do Porto, que tem um processo de fermentação bastante mais curto. Também diverge o tipo de castas utilizadas. As principais características do vinho do Porto são a sua doçura natural e o facto de ser um vinho fortificado. Para podermos produzir cerca de 12, 13 ou 14 qualidades de Vinho do Porto diferentes temos que adicionar aguardente vínica com 77 graus de volume nas diferentes fases de fermentação, para que assim o açúcar fique nas uvas e nós consigamos fazer os diferentes tipos de vinho e também aumentar o volume de álcool. No caso da Cálem, o volume de álcool é de 20% para cada vinho.”


Um negócio lucrativo


Com uma excelente reputação internacionalmente e taxas de exportação tão elevadas, não é de admirar que a venda do Vinho do Porto se revele um negócio bastante lucrativo. A Quinta do Noval é uma loja que vende exclusivamente Vinho do Porto. Encontra-se sedeada no Douro, mas tem a sua representação em V.N.Gaia, perto das caves do Vinho do Porto. Rute Monteiro, relações públicas e gerente de vendas da Quinta do Noval, dá-nos umas luzes acerca das características deste negócio: “A Quinta do Noval consiste numa loja, um centro de recepção turística, onde nós fazemos provas gratuitas de alguns dos nossos vinhos e onde o cliente de qualquer nacionalidade pode adquirir vinhos da Noval. Nós prestamos acolhimento turístico em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão e português, obviamente.”
São de várias nacionalidades os turistas que procuram quase diariamente o divinal sabor do Vinho do Porto. Porém, há maior afluência de turistas de determinados países. “Os espanhóis são efectivamente os clientes número um, seguindo-se os franceses, os ingleses e os alemães” – refere Rute.
São também visíveis as preferências dos clientes, que procuram diferentes tipos de Vinho do Porto. Na Quinta do Noval, Rute diz-nos que os vinhos mais vendidos são “essencialmente vinhos de entrada de gama, portanto, Ruby, Tawny, e depois uma gama superior constituída por vinhos de 10 anos.”


Fama além fronteiras


A fama e reputação do Vinho do Porto atravessam fronteiras e continentes. Reconhecido em dezenas de países, o nosso excepcional vinho faz as delícias de apreciadores por todo o mundo. Prova disso são os turistas que propositadamente visitam as caves com o intuito de degustar o Vinho do Porto no local onde este é produzido de origem.
Peter Witten e David Goetzman, turistas inglês e holandês de visita à cidade do Porto, mostram-se maravilhados com o paladar dos vinhos do Porto que provaram durante a sua estadia. “É óptimo, muito saboroso!” – exclama Peter, e um aceno de cabeça positivo por parte da sua esposa dá a entender que partilha da sua opinião. David Goetzman chega a afirmar: “É o melhor vinho do mundo.” Estes dois visitantes elucidam-nos também acerca da posição do Vinho do Porto nos seus países. “Em Inglaterra é fácil de encontrar, basta ir a uma casa que venda bastantes qualidades de vinho, e o Vinho do Porto está lá.” – refere Peter. Já David, diz que na Holanda “não há em todo o lado, mas se procurarmos uma boa casa especializada em vinhos encontra-se facilmente.”


No segredo dos Deuses


Como constatamos o Vinho do Porto é um produto de uma qualidade excepcional, conhecido e reconhecido, apreciado e valorizado. Quanto à sua produção, é um segredo bem guardado pelos donos e trabalhadores das quintas do douro e das caves do Vinho do Porto. Quando questionada acerca do segredo do Vinho do Porto, Susana apenas respondeu, após uma simpática risada: “O segredo do Vinho do Porto é a qualidade de cada cave. Todas elas se distinguem entre si, todas elas são diferentes. Também depende muito das características do enólogo de cada cave. Finalmente, depende do gosto particular de cada cliente.” O segredo permanece então no produtor, bem guardado para sempre no norte de Portugal.

Pequenas e Médias Empresas em Portugal


Causas e consequências do encerramento das PME no nosso país


As pequenas e médias empresas constituem uma camada extremamente heterogénea do tecido produtivo nacional, sendo caracterizadas por uma grande instabilidade e por estarem presentes em todos os sectores da economia nacional.
Em muitas regiões do nosso país, sobretudo no interior, são muitas vezes as pequenas e médias empresas juntamente com as autarquias locais os únicos dinamizadores e impulsionadores da actividade económica.
As mais de 290 mil PME activas no nosso país até finais de 2004 eram responsáveis por mais de metade do volume de negócios realizado em Portugal (aproximadamente 163,5 milhões de euros), para além de serem responsáveis pela manutenção de mais de 2 milhões de empregos (3/4 do emprego privado). Estes valores reflectem claramente a importância destas empresas enquanto factor de crescimento da economia nacional.
É assim de fácil compreensão o impacto e a gravidade das consequências socio-económicas decorrentes do encerramento destas empresas no nosso país.



As pequenas e médias empresas, devido às suas condicionantes em termos de dimensão e projecção, têm dificuldades estruturais quanto à sua capacidade financeira, de organização e gestão, o que as torna algo vulneráveis relativamente às empresas de grandes dimensões. Contudo, as pequenas e médias empresas continuam a ser uma das principais alavancas da economia nacional, contribuindo em grande medida para o PIB e para a taxa de emprego em Portugal.
O crescente fenómeno do encerramento das PME em Portugal afecta gravemente a economia. De acordo com Luísa Vasconcelos, docente da Universidade Fernando Pessoa, “em Portugal este fenómeno afecta a economia a curto prazo e de forma muito pesada, o que significará uma perda em termos industriais e de tecido produtivo, mas significa, sobretudo, o desemprego de camadas populacionais que lamentavelmente não terão ainda, em determinados sectores, a formação suficiente para transitar para outros sectores produtivos.”


Para Luísa Vasconcelos, a forma de contrariar esta tendência seria “fundamentalmente a instituição de uma cultura de empreendedorismo que tem que ser retomada ou desenvolvida.” Segundo a docente universitária, “a função empresarial portuguesa ainda tem uma grande evolução a fazer se se quiser tornar numa função empresarial inovadora, diferenciadora e moderna. Aquela função empresarial que não se souber adaptar irá, por certo, ver a sua pequena ou média empresa encerrar.”


Rafael Rodrigues, Engenheiro Geotécnico, teve uma empresa vocacionada para as infra-estruturas e para trabalhos de construção civil, a qual encerrou há uns tempos atrás.
Quanto às causas do encerramento, o Engenheiro explica: “comecei a perceber que ocupava muito mais do meu tempo a correr para os bancos do que a executar trabalhos da minha área específica, o que de alguma forma contribuiu para um desânimo cada vez maior. A minha vocação de engenheiro, estava a ser preterida e estava a levar-me para uma função de gestor. Então decidi por opção própria encerrar a empresa.”


Um caso totalmente diferente é o de Luís Miguel, que tem o 12º ano de escolaridade e tinha uma empresa de transportes marítimos para os arquipélagos, a qual teve de encerrar. Luís explica os motivos que o levaram a esta decisão: “Ora bem, eu tive que encerrar a empresa devido a dois motivos essenciais: as dívidas acumuladas ao longo dos anos, as quais eu não podia suportar; e a forma de negócio, que era a compra de produtos a 60 e a 90 dias, os quais tinham que ser pagos a pronto.”


Todos sabemos que o Governo é muitas vezes um apoio decisivo para a manutenção ou o encerramento destas pequenas e médias empresas. Mas nem Rafael Rodrigues nem Luís Miguel receberam ou procuraram apoio do Governo, contudo, por razões distintas.
Relativamente a ter recebido apoio governamental, Rafael declara que: ”Não, nunca. Nem eu próprio recorri a nenhuma ajuda para contrariar o encerramento, dado que foi uma opção pessoal.”
Já Luís Miguel, confessa que: “Não procurei ajuda, mas também não recebi ajuda alguma.”


Entretanto, surge a ocupação profissional após terem encerrado as suas empresas. Rafael Rodrigues imediatamente conseguiu um lugar numa empresa de construção civil e obras públicas, já de maior dimensão, ocupando um cargo compatível com a sua função. Luís Miguel também conseguiu um emprego na Staples Office Center, na qual desempenha o cargo de operador de loja.


Formação, tecnologia e inovação


É um facto que o grau de formação académica ou profissional dos empresários e dos trabalhadores que constituem a empresa é um factor relevante para o sucesso e progresso da mesma. “naturalmente, para a empresa funcionar, é sempre preciso pessoal administrativo, preferencialmente vocacionado também para a área técnica. Tinha duas pessoas no escritório, uma que fazia o trabalho administrativo, outra que tinha o curso profissional técnico. Mas portanto, eram cursos técnicos de formação média. Depois tinha os operários, que tinham em, regra geral, o nono ano, ou seja, a escolaridade obrigatória.”, explica o engenheiro. Entretanto, na empresa de transportes de Luís Miguel, este refere que: “Os trabalhadores da minha empresa poderemos diferenciar em dois grupos, um sendo os administrativos, cuja maior parte tinha o 12º ano completo. Depois tínhamos os operadores normais, cuja maior parte deles tinha o 9º ano, e muitos nem o 9º ano tinham.”


Nos dias de hoje, a aposta por parte das empresas na tecnologia e em requisitos para a internacionalização são factores cada vez mais necessários e indispensáveis para essas mesmas empresas poderem evoluir e serem competitivas no mercado.
Em que medida as PME nacionais apostam na tecnologia e em requisitos para a internacionalização? Luísa Vasconcelos responde: “Depende muito do sector, da empresa e do empresário. Nós temos exemplos de competência e capacidade de inovação muito importantes, seja no tipo de sectores associados às novas tecnologias, seja nos sectores tradicionais.”
Neste aspecto, Rafael Rodrigues afirma que: “A tecnologia utilizada na altura era actual, a empresa não me exigia mais.” Confessa ainda que: “nessa altura não tinha ambição de me internacionalizar, por duas razões fundamentais: uma delas é porque tinha aqui um mercado de trabalho extremamente interessante; a segunda razão era a própria dimensão da empresa.” No caso de Luís Miguel: “Não, a minha empresa era uma empresa virada para o mercado interno, e a nossa grande aposta eram os arquipélagos.”


Contudo, a diferenciação e inovação do produto ou serviço são também factores importantíssimos para o sucesso das empresas. São factores cada vez mais explorados com o objectivo de fidelizar mercados e clientes, e assim fazer evoluir o volume de negócio.
Luísa Vasconcelos explica-nos a relação entre a diferenciação do produto relativamente ao sucesso das pequenas e médias empresas em Portugal: “se não houver essa diferenciação, nos dias de hoje, o pequeno e médio empresário português não terá capacidade para entrar nos mercados internacionais. Não é possível para Portugal manter um padrão de crescimento como teve durante os últimos vinte ou trinta anos, baseado nos baixos custos de produção. Portugal não é capaz, hoje em dia, de competir com países como a China ou a Índia, que têm custos de produção baixíssimos.”
Quanto a isto, Rafael Rodrigues afirma que: “naquela altura, a inovação no sector não era algo significativo e eu não me tornaria mais competitivo se apostasse nas novas tecnologias. O que distinguiu o nosso serviço dos outros foi fundamentalmente, a competência técnica, a rapidez de execução e a qualidade do serviço que apresentávamos aos nossos clientes.”
Já Luís Miguel refere que, na sua empresa: “as diferenças poder-se-á dizer que eram poucas, mas uma delas era o tratamento do cliente como um amigo de longa data. A relação da empresa com os clientes dispensava formalidades, prezava antes por um entendimento cordial e uma relação de amizade.”


Exemplos reais


No entanto, apesar de todas as consequências económicas já referidas decorrentes do encerramento das PME, as consequências sociais são também bastante graves, devido à eliminação dos postos de trabalho dessas empresas e ao consequente desemprego de milhares de trabalhadores.
Eduardo Pereira trabalhava na empresa de Rafael Rodrigues, mas este caso correu de forma diferente. “Quando a empresa encerrou ninguém ficou desempregado. O sr.engenheiro conseguiu postos de trabalho para todos os funcionários na empresa para onde se mudou e onde ainda estamos.” Outro caso bem diferente é o de José Cardoso, antigo trabalhador da empresa de transportes de Luís Miguel: “Eu fiquei cerca de dois ou três meses sem emprego, tentei duas vezes numas empresas perto de casa, mas não havia nada. Um dia fui com um amigo à empresa onde ele trabalhava e consegui lá um emprego.”


Vimos assim em que medida este fenómeno afecta Portugal e os portugueses. No entanto, existem formas de o contrariar. É necessário investir na formação e qualificação, apostar na tecnologia e na diferenciação dos nossos produtos e serviços. É importante melhorar a eficácia das empresas nacionais e incentivar a expansão das mesmas no mercado, trabalhando em conformidade com esses objectivos.

Tuesday, May 29, 2007

Mitos urbanos










“Tenho orgulho em ser o que sou”


Punks, góticos, hip hopers, betos, rastafaris, dreads… uma panóplia de estilos que existem em abundância na nossa sociedade actual. Devido à liberdade actual, são várias as pessoas que optam por ser diferentes, quiçá na esperança de marcarem uma geração ou de serem simplesmente… diferentes.
Mas o que será que leva estes indivíduos a serem como são? Será que esta maneira de ser lhes trás implicações nos seus quotidianos? Revolta? Maneira de se afirmarem? Fomos à procura de respostas pelas ruas da cidade do Porto e deparamo-nos com pessoas vestidas de mil e uma maneiras. Decidimos aborda-las para podermos desvendar algumas das perguntas anteriores.


No meio de um shopping, na baixa portuense, saltou-nos à vista um indivíduo com uma crista, mil e um furos de piercing na face, casaco de cabedal, calções até aos joelhos e botas de biqueira de aço. Curiosamente não ia sozinho. A sua namorada acompanhava-o. Uma jovem elegante, com roupas de marca e um cabelo loiro a cair-lhe pelas costas a baixo. Sem mais delongas, abordamos o “punk”. Embora algo embasbacado com a situação, Pedro Quintas - Quino para os amigos – aceitou falar um pouco connosco. Sentados a uma mesa a tomar um café e a ser constantemente observados por quem passava, Pedro Quintas explicou-nos porque se veste assim. “O meu pai tinha uma banda de metal e fui praticamente criado entre guitarradas e os pratos de uma bateria. O meu progenitor era um punk à antiga. Sofria muito com isso pois os tempos eram outros e era constantemente gozado e vexado pela sociedade. Contudo, ele tinha uma personalidade muito forte e gostava de ser assim, optando por ignorar tudo isso.” explicou Quino. Como um bom filho que era, seguiu as pisadas do pai e adoptou o estilo punk. Curiosos, questionamos Pedro se ele não se sentia retraído por estar sempre a ser observado. “Claro que não” começou por afirmar para depois acrescentar que “desde pequenino que me visto assim e já tenho uma capa de invisibilidade. Tenho orgulho em ser o que sou” disse Quino. Ainda algo espantados com a forma educada com que o punk tratava a língua de Camões, não quisemos deixar fugir a oportunidade e perguntamos a Sónia, sua namorada, se não se importava de andar com um punk, tendo em linha de conta que são mal vistos pela sociedade. Com um sorriso maroto, Sónia ripostou: “Ainda bem que ele é mal visto, pois assim fica só para mim. Agora a sério. O Pedro está a acabar o curso de arquitectura e não é nenhum fora da lei. É uma pessoa muito querida, com muitos amigos e até sensível em alguns aspectos. É assim porque tem orgulho no seu pai e gosta de se vestir como ele”.
Já contentes com as respostas, agradecemos a Quino e a Sónia e fomos pregar para outra freguesia.
Calças descaídas com os boxeurs a verem-se, camisolas largas, chapéu de lado, sapatilhas largas e uma pulseira iguais aos dos jogadores de ténis… saltou-nos à vista um hip hoper. Com um estilo bastante gingão e música a rolar em alto e bom som no seu mp3, abordamos o indivíduo. Com um cumprimento fora do vulgar, em que as mãos se entrelaçavam uma na outra enquanto o peito chocava também um contra o outro, Miki – mais tarde descobrimos que o seu nome era Mickael Antunes – mostrou-se receptivo a ser entrevistado. Com um dialecto típico dos filmes norte americanos, onde os indivíduos de raça negra são os actores principais, Miki nem esperou pela nossa pergunta e começou logo a relatar. “Visto-me desta maneira porque sigo, vivo e transpiro a ideologia do hip hop.” Mas o que é a ideologia hip hop? Questionamos nós. “Mano, nunca viste um filme de hip hop? Não conheces os Mind da Gap [grupo musical portuense]? O hip hop tem muitos anos e é uma maneira de se estar na vida. Gosto de fazer as minhas rimas, ouvir uma batida e curtir com os meus manos a dançar um break dance.” Respondeu Miki. Algo perdidos nesta conversa, questionamos o jovem se ele se vestia assim por ser influenciado por alguém. “Não se trata de influências. Se fosses um rastafari, tinhas de ter rastas não era? Então, se eu sou um amante do hip hop, tenho de andar como tal” respondeu. Sem dúvida uma boa resposta que de certa forma nos matou alguma curiosidade. Mas queríamos mais. E não és gozado pelas outras pessoas? Tens a noção que assim vestido nunca vais poder ter um emprego de fato e gravata…insistimos. Com uma forte risada, Miki não levou a mal à pergunta e respondeu que: “é claro que não sou gozado. Não sou nenhum vagabundo e tenho o meu estilo e pinta. Sou estudante universitário de design. Conheces algum designer que use fato e gravata?”. A resposta era retórica e limitamo-nos a acenar com a cabeça em jeito de negação.
Já com as despedidas feitas, continuamos o nosso passeio no shopping e deparamo-nos com uma loja de roupa clássica, mas nitidamente vocacionada para jovens. “É roupa de betos,” pensamos nós. Mas o que é isso de ser beto? António Fernandes, gerente da loja deu-nos a resposta. “ A nossa marca é virada para os jovens que gostam de se vestir bem. Jovens bem-educados, normalmente ricos, vistos por muitos e apelidados por outros como os meninos ricos da mama” contou o gerente. Mas ser beto é isso? É ser rico e vestir bem? “É praticamente isso. São pessoas que marcam a sua diferença com um estilo agradável ao qual qualquer pai, gostaria de ver a sua filha com um namorado assim” disse entre sorrisos António Fernandes.
A teoria serviu-nos. Já tínhamos falado com um punk, um hiphoper e com alguém que vende roupa para betos, e tudo isto no mesmo shopping. Mas queríamos mais.
Numa tabaqueira, um jovem pedia mortalhas à empregada. Tinha uma estatura elevada e as cores da sua roupa não era propriamente discretas, pois variavam entre o amarelo, verde e vermelho. A juntar a tudo isso, os seus cabelos eram um emaranhado, fazendo lembrar aqueles esfregões de palha-de-aço que quase já não se usam. Visto de costas, o jovem era um autêntico Bob Marley, a lenda falecida do Reggae. Se há alguém que queria ser diferente ali, era ele. Descontraídos, metemos conversa e fomos tomar um chá com Bruno Cunha. Que nem crianças, pedimos educadamente a Bruno para nos deixar tocar nas suas rastas. “Claro meus irmãos. Ao contrário do que muita gente pensa, lavo o cabelo todos os dias e não tenho piolhos” declarou o rastafari com uma paz de espírito subliminal. Porque é que fizeste isto ao cabelo? questionamos. A resposta demorou a sair, pois enquanto pensava, enrolava um cigarro com sabor a mentol. “Sigo a religião rastafari. Não como carne para não desalinhar os meus chakras e estou sempre em harmonia com a natureza” respondeu. Das duas uma. Ou é a pessoa mais calma do mundo, ou está drogado, tal é a lentidão com que fala, pensamos nós. Curiosamente, a resposta certa é a primeira, pelo menos neste rastafari. “Não consumo drogas. Para nós, a droga é maligna, pois foi algo que o homem inventou e que traz guerras. Os rastafaris fumam erva, mas pura, pois é uma dádiva da mãe natureza.” esclareceu Bruno Cunha.
Completamente enjoados com o cheiro a tabaco de mentol, despedimo-nos de Bruno e viemos apanhar ar. “Como seria se eu aparece-se aqui de rastas, calças largas, camisola de marca chique e botas de biqueira de aço?” perguntou um de nós. “Parecias um tolinho” respondeu o outro com gargalhadas.
Mas a pergunta até tinha razão de ser. Será que me iria sentir bem dessa maneira? As pessoas olhariam para mim com a mesma cara? Não nos parece. Algo desiludidos por termos obtido tantas respostas mas nenhuma em concreto, tentamos ir bem ao cerne da questão e fomos falar com um psicólogo. “ Cada qual é como cada qual. Há profissões diferentes, há gostos diferentes, há hobbies diferentes, há maneiras de ser e de se estar na vida diferentes. Visto isto, é normal que cada indivíduo siga caminhos diferentes. Para terem uma ideia. Tenho dois filhos. Uma é gótica [24 anos] e o outro é beto [22 anos]. Eu sou psicólogo e a minha esposa é médica. Considero a minha família normal, e eles são assim porque são influenciados por algo mas o mais importante é que se sentem bem como são”, explicou-nos Jorge Amaral, psicólogo há vinte anos.

Monday, May 28, 2007


Os guardiões da praia

Os nadadores salvadores conhecem os perigos do meio aquático e têm como função zelar pela segurança dos banhistas especialmente na época balnear. Formados pelo Instituto de Socorros a Náufragos existem exclusivamente para proteger os banhistas mas, para isso, é preciso que todos colaborem e respeitem o apito dos homens das praias e ouçam os seus conselhos.
Para uma estadia segura na praia vigiada, há algumas regras básicas de segurança que devem ser respeitadas: cuidados simples como evitar comer antes 3 horas de ir para a água, não ingerir bebidas alcoólicas, ter em atenção os longos períodos de exposição ao sol ou respeitar a bandeira vermelha. Os banhistas devem recolher informações sobre as praias que frequentam, sobretudo no que respeita a correntes, rochas, fundões e zonas de perigo, assim como informação sobre as marés. Estes dados, em conjunto com o conhecimento das regras básicas de segurança, ajudá-lo-ão a ter uns dias de praia mais seguros.

Mas infelizmente não é isto que acontece nas praias de Portugal. As regras são facilmente quebradas pelos banhistas e mesmo sendo uma praia vigiada o perigo espreita quando não são consideradas as normas de segurança impostas pelos nadadores salvadores. Bruno Silva, nadador salvador da concessão da praia Azul de Espinho é o testemunho desta realidade e vê os seus apelos serem muitas vezes ignorados. “ Esta é uma profissão ingrata, porque queremos ajudar as pessoas mas elas não nos querem ajudar”, explica. Para Bruno Silva “os banhistas deviam conhecer as praias que frequentam e ter uma pequena noção das suas limitações dentro de água.” Sobre os processos de socorro explica que nunca coloca a sua vida em risco tal como lhe foi ensinado aquando da sua formação: “ A primeira regra básica que aprendemos quando queremos obter a licença de salvamento é que nunca e em qualquer situação devemos colocar a nossa própria vida em risco.” Numa situação de afogamento a vítima desesperada recorre a todos os actos possíveis para se salvar. “ Nunca podemos, por exemplo, entregar de mão beijada a bóia de salvamento à vitima, devemos sempre manter a distância de segurança dentro de água, e enviá-la para o seu raio de acção, caso contrário podemos ser vitimas de estrangulação ou empurrados para o fundo do mar juntamente com a vítima.” Questionado sobre se a necessidade de intervir para salvar um banhista, o nadador salvador lamenta sempre que tem de evitar o pior. “ É de lastimar a inconsciência das pessoas, porque normalmente colocam-se em perigo pela sua ingenuidade. Há pessoas que se afastam demasiado da costa e quando dão por si já não têm forças para voltar, outros exageram porque sentem-se à vontade na água mas esquecem-se que podem ser vítimas de cãimbras fruto do frio e do esforço muscular ou outras até que mesmo antes de completarem a digestão se atiram ao mar.” Para Bruno, o problema dos afogamentos está nas mentalidades e não tanto na falta de vigilância pelas praias do país. “ Há situações em que nem o nadador salvador pode conservar a vida de uma pessoa. Se essa pessoa desrespeita as ordens como a bandeira vermelha torna-se impossível, muitas das vezes, para o nadador salvador evitar o pior. Quando as praias não são vigiadas, os cuidados devem ser redobrados e necessário um conhecimento prévio das condições do mar, caso contrário coloca-se a vida em perigo.” Outra das situações que intimidam o nadador salvador é a falta de atenção dos pais para com as suas crianças. “ É inadmissível não prestar atenção a uma criança quando ela é da própria família. Não nos podemos esquecer que as crianças são bastante vulneráveis, não só na água como na praia, pois o sol é bastante prejudicial à pele das crianças. Felizmente ainda não tive nenhuma situação no limite de afogamento de uma criança, mas repetem-se as situações em que as crianças se perdem no arial por falta de atenção dos seus pais.” A época alta dos nadadores salvadores é o período balnear e por isso os nadadores salvadores conciliam esta profissão a “part-time” com outra profissão. “ Eu sou professor de educação física, o que me possibilita aliar as duas profissões porque normalmente quando termina o ano escolar inicia-se a época balnear.”

Ora, quisemos saber também a outra perspectiva dos factos, o lado dos banhistas. Eles que muitas vezes são acusados de desrespeito, são também uma parte importante e interveniente no bem-estar das praias. A senhora Maria Lurdes, é filha de pescadores e mora com o mar à sua porta. “ Ó meu menino, vivo no mar desde que nasci e conheço bem este lugar”, assegura a senhora Lurdes. O seu marido é pescador e ganha a vida no mar. “ O meu marido é pescador e conhece como ninguém o mar. O mar é muito traiçoeiro às vezes só Deus o sabe.” A questão eram os comportamentos de risco dos banhistas. “ Já assisti a dois salvamentos nesta praia, mas também já morreram outras tantas pessoas. Infelizmente não se pode confiar no mar e as pessoas julgam-se donas e senhoras do mar mas esquecem-.se que mesmo os pescadores mais experientes já ficaram no mar.” Em relação ao papel dos nadadores salvadores nas praias a senhora Maria mostra-se bastante pragmática: “ Esses senhores não podem fazer nada, coitados. As pessoas deviam ser mais cuidadosas e não se fazerem ao mar assim. Já vi dias em que nem uma embarcação sequer conseguia entrar no mar, quanto mais um nadador salvador.”
As praias são normalmente alvo da peregrinação de famílias para o mar, que acordam cedo para aproveitar bem o dia de praia. Foi exactamente isto que aconteceu com a família Miranda. Com dois filhos, todos os cuidados são poucos para o casal Miranda, segundo Afonso pai dos miúdos. “ É preciso redobrar-nos em esforços porque quando olhamos para o lado eles fogem rapidamente do nosso alcance.” Já a progenitora não tira o olho e a atenção por um segundo que seja dos seus filhotes. “ Eu também já fui mais nova e sei como é. Eles adoram a praia mas não têm consciência dos perigos que correm e por isso não se pode baixar as atenções deles.” A família respeita a preceito as normas básicas de segurança na praia: “ Não vamos para a água antes da digestão estar feita, os nossos filhos vão sempre acompanhados por nós para a água e temos os cuidados normais com o sol, usamos o protector solar.”Interrogados sobre o papel dos nadadores salvadores na segurança dos banhistas, a família Miranda aprova a sua presença. “ É importante a presença dos nadadores salvadores na praia. Nós, por exemplo, escolhemos sempre uma praia vigiada e eu pessoalmente sinto-me bem mais seguro na presença da vigilância de um nadador salvador”, atesta Afonso Miranda. Já a sua esposa pensa que “ os nadadores salvadores são fundamentais para manter a ordem e actuarem em situações de emergência ou perigo iminente”, conclui.

Existem cerca de cinco mil nadadores salvadores formados pelo Instituto de Socorros a Náufragos para cerca de 350 quilómetros de costa portuguesa com praia.O seu papel passa por zelar e manter a segurança das praias, bem como informar os banhistas e turistas das condições da praia e mar e mesmo incentivar ao uso de protecção solar.

Wednesday, April 25, 2007

A Guerra Inacabada

Saddam Hussein podia ser um ditador sedento de sangue que matou milhares de inocentes do seu povo, mas era um mestre da sobrevivência política. Durante uma festividade muçulmana no Iraque, ele fez o seguinte comentário sarcástico: se os Estados Unidos quisessem acabar com seu regime, ele apoiaria a decisão, pois seria uma decisão mais “civilizada” do que atacar iraquianos inofensivos. E eu não poderia estar mais de acordo, senão vejamos. A sua declaração está carregada de ironismo e cinismo: Saddam sempre esteve disposto a permitir o sofrimento da população iraquiana – na guerra contra o Irão, durante a Guerra do Golfo e quando foram impostas sanções sobre o Iraque – no entanto os EUA nunca impediram que ele permanecesse no poder. Saddam Hussein nunca esteve disposto a sacrificar suas ambições para aliviar o sofrimento de seu povo, mas os Americanos nunca se intrometeram na vida Iraquina, certamente por razões não convenientes.

Ora, após o ataque de 11 de setembro ao World Trade Center, o ditador iraquiano perdeu muitos de seus antigos aliados. Desde a tragédia, vários países árabes têm se distanciado de nações que expressam atitudes anti-americanas. Estes países temem consequências políticas, econômicas e até mesmo militares, que podem sofrer se os Estados Unidos suspeitarem que eles apoiam a guerra fundamentalista islâmica contra a América. Portanto, o ditador do Iraque encontrava-se isolado e à frente de uma administração norte-americana que estava disposta a tomar medidas militares para removê-lo do poder e como mais tarde se veio a assistir, estava também disposta a apanha-lo "vivo ou morto" segundo G.W. Bush. A execução foi um espetáculo pobre e cruel que os Estados Unidos proporcionaram ao mundo, que só teve o mérito ou demérito de avultar a raiva dos fundamentalistas islâmicos.

O ataque terrorista de 11 de setembro demonstrou que os fundamentalistas estão dispostos a cometer atrocidades inimagináveis. Saddam Hussein não era um fundamentalista, mas era considerado um déspota perigoso, mesmo por muitos líderes árabes.
Os Estados Unidos, com o derrube e executação de Saddam Hussein, tentaram claramente evitar outra tragédia como a que aconteceu a 11 de setembro. Mas não será fácil construir uma coligação contra o Iraque. Será que os Estados Unidos estão dispostos a lutar contra o Iraque mesmo sem o apoio de outros países árabes? O pai do actual presidente restaurou a moral das forças militares dos Estados Unidos, estilhaçada na sua guerra anterior, como vem se recordam, a miserável guerra proclamada pelos Americanos ao Vietname. Porém, apesar dos Estados Unidos terem facilmente derrotado o Iraque, não foram capazes de alcançar o seu objectivo principal de instaurar a paz no Iraque, e muito menos, conseguiram impedir os fundamentalistas de cometerem novos ataques e atrocidades ao país dos sonhos e das novas oportunidades. George W. Bush parece estar determinado a completar a missão militar que o seu pai deixou inacabada, como relata a cada conferênica, mas os Árabes enchem-se de ódio a cada gota de sangue derramada pelo Islão. Uma guerra inacabada portanto, sem limites e direitos humanos.

LIPOR - GESTÃO, VALORIZAÇÃO E TRATAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS


LIPOR – O CONSUMO SUSTENTÁVEL DO FUTURO

A LIPOR – Serviço Inter municipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto – é a entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos resíduos produzidos pelos oito municípios que a integram: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde.Constituída como Associação de Municípios em 1982, a Lipor tem vindo a implementar uma gestão integrada de resíduos, recuperando, ampliando e construindo infra-estruturas, além de desenvolver campanhas de sensibilização junto das populações.
A LIPOR tem como politica desenvolver acções de informação e sensibilização focalizando o cidadão como agente de mudança para a sustentabilidade do meio ambiente. Educar, formar, informar e partilhar conhecimentos são componentes chave na realização desta política, de modo a contribuírem para o crescimento sustentável e sucesso da LIPOR.Uma das acções de promoção da LIPOR recai na visita às instalações onde se processa a reciclagem. As visitas duram pouco mais de meia hora, são dirigidas a grupos e realizam-se sob marcação através da ficha de inscrição on-line (http://www.lipor.pt/) ou através da Eco linha – 800 200 254.O circuito da reciclagem é acompanhado pela informação dada pelos profissionais da LIPOR que explicam as diferentes etapas do processo de reciclagem. Uma das profissionais de informação da LIPOR chama-se Fátima Nogueira, e é uma das responsáveis pela orientação e informação dos visitantes ao circuito de reciclagem da LIPOR. Fátima Nogueira começa por esclarecer que “na LIPOR não se realiza a reciclagem mas sim o tratamento dos resíduos sólidos urbanos”. E justifica: “Esse tratamento é feito de três formas diferentes.
Na LIPOR II recebemos o lixo indiferenciado onde o queimamos e através dessa queima produzimos energia eléctrica. No centro de triagem separamos os resíduos e enviamos para reciclar. Na central de valorização orgânica através dos resíduos separados mas indiferenciados fazemos composto que tem o nome de Nutrimais.” Os materiais recicláveis e os materiais não recicláveis são quase sempre alvo de dúvidas dos visitantes, e Fátima Nogueira informa: “No centro de triagem separamos na linha dos corpos planos o cartão e a mescla. Na linha dos corpos volumosos separamos, o PET, PVC, PEAD, Filmes, tetra pack, esferovite, aço e alumínio. Em ambas as linhas temos produtos rejeitados que são encaminhados para a Lipor II.” A LIPOR preocupa-se com a sensibilização das crianças para a reciclagem, e espera transmitir essa educação ambiental de forma eficaz sobretudo nos mais novos: “O gabinete de informação da LIPOR trabalha nas escolas dos oito municípios onde sensibiliza os diferentes níveis etários, bem como empresas quando nos solicitam acções de informação. Nas escolas a sensibilização também é feita aos professores, auxiliares de educação e funcionários” salienta Fátima Nogueira.
Por último, questionada sobre se o trabalho de gestão de resíduos da LIPOR contribuirá para um futuro mais verde, Fátima Nogueira salienta a importância da preservação do meio ambiente para a instituição. “A preservação do ambiente é muito importante para nós pois esta empresa trata dos resíduos dos oito municípios. Todo este trabalho tem a finalidade de melhorar o tratamento de resíduos de uma forma adequada para cada tipo de resíduo, daí termos estruturas de tratamento diferentes” conclui.


PEGADA ECOLÓGICA SOBRE A TERRA

Para sabermos mais sobre a importância da reciclagem e dos recursos sustentados na biodiversidade, será necessário falar com um profissional nesta matéria e, neste sentido, obter informação mais detalhada sobre a reciclagem, as energias alternativas e, sobretudo, questionar o futuro do planeta em matéria do ambiente. Ora, os engenheiros do ambiente estudam os problemas ambientais de forma integrada, nas suas dimensões ecológica, social, económica e tecnológica, com vista a promover a adequada gestão de qualquer sistema ambiental, assegurando um desenvolvimento equilibrado e sustentável. Pedro Duarte, professor na Universidade Fernando Pessoa do curso de Engenharia do Ambiente e da Saúde e especializado em Ecologia e Gestão de Ecossistemas, respondeu a todas estas questões de carácter ambiental:

O planeta vive sob a intensa pressão do aquecimento global e possivelmente sob uma situação de ponto sem retorno. Para que passos caminha o futuro do planeta?
Se entender por ser mais verde, ser um futuro em que as questões ambientais são tidas mais em atenção e portanto as pessoas têm mais sensibilidade para o impacto que a nossa sociedade causa no meio ambiente, eu acho que sim, acho que estamos a viver uma época bem mais verde daquela que se vivia a trinta anos atrás. Espero e acredito que essa nossa forma de encarar os problemas ambientais vai adquirir mais peso na nossa vida no futuro.

Na sua perspectiva a reciclagem é suficiente para inverter a tendência de destruição do meio ambiente?
A reciclagem não chega para inverter a tendência para a destruição ambiental. Se pensarmos que a destruição ambiental se prende com o desaparecimento de um conjunto de recursos, a perda da capacidade de alguns eco sistemas naturais de prestarem os serviços que sempre nos prestaram nomeadamente servirem de destino final para os nossos resíduos, eu penso que a reciclagem ajuda mas não é suficiente. Há muitas coisas que nós reciclamos e que se calhar podíamos reciclar menos se utilizasse-mos materiais mais adequados, e é preciso não esquecer que a reciclagem gasta energia e também gera poluentes para o meio ambiente e portanto o ideal é praticarmos a reciclagem sim, mas reciclar o mínimo de vezes possível. E, para isso, é preciso que os materiais que nós utilizamos sejam materiais mais duradouros em vez de utilizarmos coisas que de facto são de usar e deitar fora e que tem uma pegada ecológica realmente muito grande.

Os recursos são múltiplos mas limitados. Que medidas deveriam ser tomadas para resguardar e recuperar os recursos naturais? Optar por energias alternativas?
Hoje em dia sabe-se, ou pelo menos estima-se que nós humanos globalmente pensamos que, ao ritmo em que tiramos recursos da terra e ao ritmo que devolvemos à terra poluentes, resíduos das nossas actividades, estamos a utilizar qualquer coisa como, 1,2 ou 1,3 terras, ou seja, estamos a utilizar mais capacidades do que aquelas que o planeta tem. Isto significa que há um conjunto de recursos que estão de facto a desaparecer a um ritmo muito acelerado e portanto se nós não modificarmos as nossas atitudes, os nossos hábitos de consumo e de geração excessiva de resíduos, senão reduzirmos aquilo a que se chama a nossa pegada ecológica sobre a terra é obvio que vamos chegar a uma situação de grande dificuldade.

A industrialização iniciou um processo de consumo de massas a vários níveis. Este processo poderá conduzir a um estado de poluição sem sustento?
Se nós continuarmos a aumentar a taxa a que retiramos os recursos da terra, não só o petróleo, não só o gás natural, não só carvão, não só os combustíveis mas também as matérias primas e a taxa a que as depositamos de novo para a terra sem o tratamento adequado, o que acontece é que naturalmente a obtenção desses recursos, muito antes de eles desaparecerem, vai começar a implicar um custo de exploração incomportável.

Produtos biológicos, materiais recicláveis, e energias alternativas são três termos essenciais na renovação ambiental. Estes termos adquirirão maior importância no futuro?
Sim. As energias não há quase dúvida que terão e por isso a União Europeia quer até 2020 suportar até 20% do seu consumo energético. As energias renováveis vão ter maior importância, agora provavelmente nós vamos ter de descobrir algumas fontes energéticas de grande qualidade para substituírem as existentes porque as energias renováveis tal e qual estão hoje em dia não permitem suprimir o nosso consumo energético e terá de existir uma revolução tecnológica importante no que ao ambiente diz respeito.


CUIDAR DO AMBIENTE TAMBÉM É UM DEVER DO CIDADÃO

A preocupação em cuidar do meio ambiente para evitar a regressão e degradação da natureza e melhorar a qualidade de vida no planeta, não é só um dever das grandes empresas como a LIPOR. O cidadão tem também responsabilidades ambientais que devem ser cumpridas. Mas antes de esperar que os outros façam algo, podemos começar já a fazer a nossa parte individualmente. Cuidar do meio ambiente também é um dever do cidadão. Uma primeira e importante iniciativa é cuidar do próprio lixo, diminuindo o desperdício, separando-o por materiais e encaminhando-o para centros de reciclagem.
Maria João Guerreiro, professora na Universidade Fernando Pessoa do curso de Engenharia Civil, dá o exemplo, cumpre o seu dever como cidadã e mostra que um mundo mais verde depende apenas de cada de um de nós.

Separa os lixos em sua casa? Com que frequência pratica a reciclagem?
Sim. Eu separo o lixo em casa, sempre que tenho lixo que possa separar faço-o todos os dias.

Acha que a educação ambiental é fundamental para um futuro mais limpo?
Sim. Acho que a educação é fundamental e passo essa ideia de uma maneira até bastante activa. Por exemplo, na escola dos meus filhos eu fiz uma campanha junto dos demais pais e junto à administração da escola para se tornarem numa Eco escola e tive bons resultados. Hoje em dia a escola dos meus filhos é uma Eco escola.

Tem conhecimento de produtos reciclados no mercado? No momento de compra, costuma optar pelos produtos reaproveitados?
Neste momento não é uma prioridade. Quando vou às compras realmente não procuro os produtos reciclados. Sempre que há algum produto que seja mais amigo do ambiente, eu procuro dentro do orçamento, os produtos que sejam mais amigos do ambiente, como por exemplo, os lava-loiças, tenho uma tendência para comprar esses produtos mais amigos do ambiente.

A reciclagem devia ser um acto voluntário ou uma imposição sujeita a coima?
Não acho que deva ser feita através da imposição. As campanhas têm atingido o público cada vez mais, e acho que as campanhas devem continuar a ser feitas para a sensibilização da população. Acho que as pessoas cada vez mais reciclam em função dessas campanhas.

De que forma espera contribuir para um futuro mais verde?
Reciclando obviamente e sensibilizando os meus filhos, os meus alunos dentro da instituição, e sobretudo, dando o exemplo.Preocupa-se com a questão do meio ambiente?

É sensível à causa dos recursos sustentados e à preservação ambiental?
Obviamente. Eu acho que qualquer cidadão deve ter esse tipo de preocupação. Sou preocupada e sou sensível e tento dentro do possível proteger o meio ambiente.

Saturday, March 31, 2007

O papel do Jornalista


Uma das principais características de um jornalista, sustentou Juan Luís Cebrian, é a a sua curiosidade. Pierre Bourdieu (famosos sociólogo), por seu lado, entende que o jornalista é uma entidade abstracta que não existe; o que existe são jornalistas diferentes segundo o sexo, a idade, o nível de instrução, o jornal ou meio de comunicação. Ser jornalistas, acima de tudo, é ter um compromisso com a verdade de interesse público. É ter um compromisso com a própria sociedade, tornar público os factos e acontecimentos que a influenciam. Isso implica muitas responsabilidades e trabalho constante e árduo. Na maioria das vezes, o jornalista tem de se cingir ao estilo da instituição onde se encontra a trabalhar, mesmo que isso signifique abrir mão de colocar no seu trabalho coisas que julgue importantes. Ao mesmo tempo, é uma profissão muito recompensadora, nomeadamente quando um jornalista consegue mostrara algo que tem uma repercussão positiva na sociedade.

Entre as características pessoais que um jornalista deve ter, podemos citar: capacidade de comunicação e síntese, criatividade, curiosidade, espírito de investigação, capacidade de agir e pensar sobre pressão, dinâmica, honestidade e consciência de compromisso social, entre outras. É necessário também ser objectivo, ter elevada capacidade de raciocínio e de análise. Em termos comportamentais, um bom jornalista tem de saber relacionar-se com as suas fontes e ser persistente no contacto, de forma a aumentar a probabilidade de recepção de informação. Tem de ter elevada capacidade de adaptação, resistência ao stress e ser empreendedor, isto é, querer ir sempre mais alem. Compete ainda ao jornalista o acto inaugural da sua actividade – distinguir o notável – para isso supõe-se que seja feita uma primeira leitura da actividade
O jornalista assume-se como intérprete da actualidade, entendida como o momento presente da realidade. Um jornalista é tudo isto mais o local de onde olha o mundo, ou seja, ele observa-o através das suas lentes culturais e sociais, mas o seu ângulo de visão é determinado pelo local de onde olha, que é o seu posto de trabalho. Porém, o jornalista atinge a sua expressão e existência na forma como consegue afirmar-se profissionalmente e no modo como se relaciona com os restantes elementos da mesma cadeia jornalística.


Nuno Oliveira

No topo do mundo


O montanhismo é visto por muitos como um desporto radical. Contudo, descobrimos que não é um desporto e de radical tem muito pouco. Nos tempos que hoje correm, esta actividade é vista como algo que passa por um passeio na montanha, escalada em que ambas as mãos são, ocasionalmente, utilizadas e escalada em rocha -ou gelo- onde ambas as mãos são constantemente usadas e a técnica, assim como o material ,são indispensáveis.
Em Portugal, o montanhismo é um desporto com um número considerado de praticantes e para já, a tendência é para aumentar.
São vários os Núcleos de Montanhismo neste pais à beira mar plantado, mas para um melhor esclarecimento desta actividade, fomos falar com João Graça, também conhecido por Jonas, um dos fundadores do Núcleo de Montanhismo de Espinho e Nuno Miguel, um jovem escalador do Núcleo espinhense, acreditado pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada.


Na gigante Nave Municipal de Espinho, situada na freguesia de Silvalde, fomos ao encontro dos jovens João Graça e Nuno Miguel que nos receberam com uma grande simpatia para uma pequena conversa sobre o montanhismo.
Para o comum dos mortais, esta actividade é vista como um desporto radical, pois envolve a existência de um certo perigo e adrenalina a correr pelas veias. Porém, tal ideía parece não ser a mais correcta, pois segundo João Graça “fazer montanhismo não é a mesma coisa que fazer Bungee jumping. A essência do montanhismo é ir para a serra fazer caminhadas, de forma a desanuviar o stress que tem acumulado durante a semana toda”.
O termo “escalada” e montanhismo, estão frequentemente ligados e a confusão pode ser grande. No que toca a escalda, Jonas começou por nos explicar que essa actividade “passa por escalar com cordas uma parede em rocha natural ou uma parede pré fabricada” para de seguida acrescentar que “no montanhismo pode ser simplesmente fazer uma caminhada por um trilho numa serra”.

Montanhismo (não) é desporto

Esclarecido o imbróglio, confrontamos o dirigente do Núcleo de Montanhismo de Espinho com a típica questão se estas actividades podem ser vistas como um desporto. Entre sorrisos, João Graça foi matreiro na resposta e frisou o facto de esta ser uma questão traiçoeira. Porém, a sua resposta não demorou a surgir. “O montanhismo não pode ser considerado como um desporto, visto que não existe competição.”, começou por proferir Jonas para acrescentar que “na escalada há competições e aí pode ser visto como um desporto, mas normalmente, o prazer de conseguir subir uma parede, é ultrapassado pelo prazer de ganhar uma competição, daí ser difícil explicar”.

O exemplo João Garcia

Enquanto decorria a conversa, não pudemos deixar de reparar em fotos do suprasumum do montanhismo em Portugal, João Garcia. Entre dois dedos de conversa, Jonas contou-nos que conheceu João Garcia por acaso. “É uma pessoa que transpira humildade. Uma vez estava a escalar em Sintra, e ele estava lá a dar corda a um rapaz. Não o conhecia, mas comecei a conversar e a dado ponto perguntei-lhe porque é que não estava a escalar, respondendo-me ele que: congelações e tal… Perguntei-lhe o que se passou, pois em Portugal era difícil ter lhe acontecido tal. Depois de tanta insistência ela lá acabou por explicar que foi numa montanha com mais de oito mil metros, que lhe gelou as pontas dos dedos. Falamos mais um pouco e ficamos amigos desde aí. Normalmente, trocamos correspondência e ele aparece por aí É um exemplo de pessoa.”
Mas não há muitas pessoas iguais a João Garcia. Porquê? Será que os escaladores portugueses não são tão bons como os estrangeiros? João Graça dá a resposta: “No presente, temos bons praticantes de escalada, mas nunca poderão ser profissionais pois o dinheiro não chega. Na França, por exemplo, existem muitos profissionais porque tem imensos apoios. O Garcia é um caso à parte, pois trabalhou imenso para chegar onde chegou e a vida dele é o montanhismo” rematou Jonas.

“Prazer de admirar paisagens maravilhosas”

Mas o que levará alguém a praticar montanhismo ou escalada? A resposta foi dada por um dos muitos atletas acreditados pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada que treinam na Nave Desportiva.
Sem rodeios, o jovem Nuno Miguel deu uma resposta adaptada à realidade a que ele viveu. “Para mim esta actividade é muito gratificante pois além de trabalhar o corpo, também trabalho a mente.”, começou por explicar o escalador para depois acrescentar “que não há nada no mundo que pague o prazer de subir a uma montanha que, aparentemente, parecia impossível. A juntar a tudo isto, tenho o prazer de admirar paisagens maravilhosas que só as vejo porque gastei litros de suor para escalar as rochas”, conclui Nuno Miguel.

Nuno Oliveira

Friday, March 30, 2007

Jornalismo… a quanto obrigas



A violência continua a fermentar no Médio Oriente. Mais uma vez, Israel e vizinhos estão num estado de guerra. O tempo parece dar razão aos que sempre julgaram que com o Hamas no poder, a paz seria mais difícil. Com isto, muitas das simpatias internacionais transferiram-se para o lado israelita, ou pelo menos hesitam defender uma organização tão pouco recomendável e considerada extremista. Quando um soldado israelita foi raptado, muitos acharam compreensível a resposta de Israel.
Mas será que um rapto vale uma guerra? Não perderá Israel a razão com uma resposta tão desproporcionada? Não estará assim a alienar as simpatias recém-conquistadas?
Parece que no Médio Oriente é necessário recorrer ciclicamente à violência para reavivar o gosto pela paz. Mas para que esta regresse é preciso conter a violência dentro de certos limites. É preciso que quem se converteu à guerra não chegue a tais extremos que se veja impossibilitado de se reconverter à paz.
A cobertura noticiosa de cenários de guerra, em que as deslocações dos jornalistas são bastante controladas, exige destes um forte sentido de auto controlo, para que não se transformem em meros retransmissores de propaganda alheia e para que não passem ao lado da realidade (um dos típicos problemas do jornalismo actual)
As reportagens feitas em zonas controladas pelo Hezbollah a que vamos assistindo parecem, regra geral, clones umas das outras. Têm todas declarações “espontâneas” de populares, a amaldiçoar a América e Israel. Têm todas gente aos saltos e aos berros, jurando querer devotar o resto das suas vidas à causa do Hezbollah. Têm todas as mesmas ambulâncias, convenientemente acabadas de partir rumo a mais uma emergência. São tão parecidas que parecem resultar do mesmo guião. A questão é: quem anda a escrever este guião?
Muitas das imagens que nos são servidas à hora do jantar não são espontâneas, nem resultam do trabalho apurado de um qualquer cameraman. Pelo contrário, são encenações da realidade servidas de bandeja aos repórteres, para que estes possam captar imagens apelativas sem muito trabalho.
Desconfio que os escrúpulos da maioria dos jornalistas não os impeçam de usar estas imagens. Como diz muito marialva a propósito do silicone no peito das senhoras, mais vale uma boa imitação do que um mau original. Neste caso, mais vale uma boa imagem encenada do que uma má imagem espontânea, sobretudo quando a primeira passa bem pela segunda.
Pode até acontecer que a encenação não se afaste muito da realidade. Pode até ser que um pouco de silicone televisivo torne a reportagem mais apelativa, a ainda por cima mais fácil de realizar. Mas esta opção tem riscos, riscos que os jornalistas deviam ponderar se vale a pena correr.


Nuno Oliveira