Tuesday, May 29, 2007

Mitos urbanos










“Tenho orgulho em ser o que sou”


Punks, góticos, hip hopers, betos, rastafaris, dreads… uma panóplia de estilos que existem em abundância na nossa sociedade actual. Devido à liberdade actual, são várias as pessoas que optam por ser diferentes, quiçá na esperança de marcarem uma geração ou de serem simplesmente… diferentes.
Mas o que será que leva estes indivíduos a serem como são? Será que esta maneira de ser lhes trás implicações nos seus quotidianos? Revolta? Maneira de se afirmarem? Fomos à procura de respostas pelas ruas da cidade do Porto e deparamo-nos com pessoas vestidas de mil e uma maneiras. Decidimos aborda-las para podermos desvendar algumas das perguntas anteriores.


No meio de um shopping, na baixa portuense, saltou-nos à vista um indivíduo com uma crista, mil e um furos de piercing na face, casaco de cabedal, calções até aos joelhos e botas de biqueira de aço. Curiosamente não ia sozinho. A sua namorada acompanhava-o. Uma jovem elegante, com roupas de marca e um cabelo loiro a cair-lhe pelas costas a baixo. Sem mais delongas, abordamos o “punk”. Embora algo embasbacado com a situação, Pedro Quintas - Quino para os amigos – aceitou falar um pouco connosco. Sentados a uma mesa a tomar um café e a ser constantemente observados por quem passava, Pedro Quintas explicou-nos porque se veste assim. “O meu pai tinha uma banda de metal e fui praticamente criado entre guitarradas e os pratos de uma bateria. O meu progenitor era um punk à antiga. Sofria muito com isso pois os tempos eram outros e era constantemente gozado e vexado pela sociedade. Contudo, ele tinha uma personalidade muito forte e gostava de ser assim, optando por ignorar tudo isso.” explicou Quino. Como um bom filho que era, seguiu as pisadas do pai e adoptou o estilo punk. Curiosos, questionamos Pedro se ele não se sentia retraído por estar sempre a ser observado. “Claro que não” começou por afirmar para depois acrescentar que “desde pequenino que me visto assim e já tenho uma capa de invisibilidade. Tenho orgulho em ser o que sou” disse Quino. Ainda algo espantados com a forma educada com que o punk tratava a língua de Camões, não quisemos deixar fugir a oportunidade e perguntamos a Sónia, sua namorada, se não se importava de andar com um punk, tendo em linha de conta que são mal vistos pela sociedade. Com um sorriso maroto, Sónia ripostou: “Ainda bem que ele é mal visto, pois assim fica só para mim. Agora a sério. O Pedro está a acabar o curso de arquitectura e não é nenhum fora da lei. É uma pessoa muito querida, com muitos amigos e até sensível em alguns aspectos. É assim porque tem orgulho no seu pai e gosta de se vestir como ele”.
Já contentes com as respostas, agradecemos a Quino e a Sónia e fomos pregar para outra freguesia.
Calças descaídas com os boxeurs a verem-se, camisolas largas, chapéu de lado, sapatilhas largas e uma pulseira iguais aos dos jogadores de ténis… saltou-nos à vista um hip hoper. Com um estilo bastante gingão e música a rolar em alto e bom som no seu mp3, abordamos o indivíduo. Com um cumprimento fora do vulgar, em que as mãos se entrelaçavam uma na outra enquanto o peito chocava também um contra o outro, Miki – mais tarde descobrimos que o seu nome era Mickael Antunes – mostrou-se receptivo a ser entrevistado. Com um dialecto típico dos filmes norte americanos, onde os indivíduos de raça negra são os actores principais, Miki nem esperou pela nossa pergunta e começou logo a relatar. “Visto-me desta maneira porque sigo, vivo e transpiro a ideologia do hip hop.” Mas o que é a ideologia hip hop? Questionamos nós. “Mano, nunca viste um filme de hip hop? Não conheces os Mind da Gap [grupo musical portuense]? O hip hop tem muitos anos e é uma maneira de se estar na vida. Gosto de fazer as minhas rimas, ouvir uma batida e curtir com os meus manos a dançar um break dance.” Respondeu Miki. Algo perdidos nesta conversa, questionamos o jovem se ele se vestia assim por ser influenciado por alguém. “Não se trata de influências. Se fosses um rastafari, tinhas de ter rastas não era? Então, se eu sou um amante do hip hop, tenho de andar como tal” respondeu. Sem dúvida uma boa resposta que de certa forma nos matou alguma curiosidade. Mas queríamos mais. E não és gozado pelas outras pessoas? Tens a noção que assim vestido nunca vais poder ter um emprego de fato e gravata…insistimos. Com uma forte risada, Miki não levou a mal à pergunta e respondeu que: “é claro que não sou gozado. Não sou nenhum vagabundo e tenho o meu estilo e pinta. Sou estudante universitário de design. Conheces algum designer que use fato e gravata?”. A resposta era retórica e limitamo-nos a acenar com a cabeça em jeito de negação.
Já com as despedidas feitas, continuamos o nosso passeio no shopping e deparamo-nos com uma loja de roupa clássica, mas nitidamente vocacionada para jovens. “É roupa de betos,” pensamos nós. Mas o que é isso de ser beto? António Fernandes, gerente da loja deu-nos a resposta. “ A nossa marca é virada para os jovens que gostam de se vestir bem. Jovens bem-educados, normalmente ricos, vistos por muitos e apelidados por outros como os meninos ricos da mama” contou o gerente. Mas ser beto é isso? É ser rico e vestir bem? “É praticamente isso. São pessoas que marcam a sua diferença com um estilo agradável ao qual qualquer pai, gostaria de ver a sua filha com um namorado assim” disse entre sorrisos António Fernandes.
A teoria serviu-nos. Já tínhamos falado com um punk, um hiphoper e com alguém que vende roupa para betos, e tudo isto no mesmo shopping. Mas queríamos mais.
Numa tabaqueira, um jovem pedia mortalhas à empregada. Tinha uma estatura elevada e as cores da sua roupa não era propriamente discretas, pois variavam entre o amarelo, verde e vermelho. A juntar a tudo isso, os seus cabelos eram um emaranhado, fazendo lembrar aqueles esfregões de palha-de-aço que quase já não se usam. Visto de costas, o jovem era um autêntico Bob Marley, a lenda falecida do Reggae. Se há alguém que queria ser diferente ali, era ele. Descontraídos, metemos conversa e fomos tomar um chá com Bruno Cunha. Que nem crianças, pedimos educadamente a Bruno para nos deixar tocar nas suas rastas. “Claro meus irmãos. Ao contrário do que muita gente pensa, lavo o cabelo todos os dias e não tenho piolhos” declarou o rastafari com uma paz de espírito subliminal. Porque é que fizeste isto ao cabelo? questionamos. A resposta demorou a sair, pois enquanto pensava, enrolava um cigarro com sabor a mentol. “Sigo a religião rastafari. Não como carne para não desalinhar os meus chakras e estou sempre em harmonia com a natureza” respondeu. Das duas uma. Ou é a pessoa mais calma do mundo, ou está drogado, tal é a lentidão com que fala, pensamos nós. Curiosamente, a resposta certa é a primeira, pelo menos neste rastafari. “Não consumo drogas. Para nós, a droga é maligna, pois foi algo que o homem inventou e que traz guerras. Os rastafaris fumam erva, mas pura, pois é uma dádiva da mãe natureza.” esclareceu Bruno Cunha.
Completamente enjoados com o cheiro a tabaco de mentol, despedimo-nos de Bruno e viemos apanhar ar. “Como seria se eu aparece-se aqui de rastas, calças largas, camisola de marca chique e botas de biqueira de aço?” perguntou um de nós. “Parecias um tolinho” respondeu o outro com gargalhadas.
Mas a pergunta até tinha razão de ser. Será que me iria sentir bem dessa maneira? As pessoas olhariam para mim com a mesma cara? Não nos parece. Algo desiludidos por termos obtido tantas respostas mas nenhuma em concreto, tentamos ir bem ao cerne da questão e fomos falar com um psicólogo. “ Cada qual é como cada qual. Há profissões diferentes, há gostos diferentes, há hobbies diferentes, há maneiras de ser e de se estar na vida diferentes. Visto isto, é normal que cada indivíduo siga caminhos diferentes. Para terem uma ideia. Tenho dois filhos. Uma é gótica [24 anos] e o outro é beto [22 anos]. Eu sou psicólogo e a minha esposa é médica. Considero a minha família normal, e eles são assim porque são influenciados por algo mas o mais importante é que se sentem bem como são”, explicou-nos Jorge Amaral, psicólogo há vinte anos.

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