Saturday, March 31, 2007

No topo do mundo


O montanhismo é visto por muitos como um desporto radical. Contudo, descobrimos que não é um desporto e de radical tem muito pouco. Nos tempos que hoje correm, esta actividade é vista como algo que passa por um passeio na montanha, escalada em que ambas as mãos são, ocasionalmente, utilizadas e escalada em rocha -ou gelo- onde ambas as mãos são constantemente usadas e a técnica, assim como o material ,são indispensáveis.
Em Portugal, o montanhismo é um desporto com um número considerado de praticantes e para já, a tendência é para aumentar.
São vários os Núcleos de Montanhismo neste pais à beira mar plantado, mas para um melhor esclarecimento desta actividade, fomos falar com João Graça, também conhecido por Jonas, um dos fundadores do Núcleo de Montanhismo de Espinho e Nuno Miguel, um jovem escalador do Núcleo espinhense, acreditado pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada.


Na gigante Nave Municipal de Espinho, situada na freguesia de Silvalde, fomos ao encontro dos jovens João Graça e Nuno Miguel que nos receberam com uma grande simpatia para uma pequena conversa sobre o montanhismo.
Para o comum dos mortais, esta actividade é vista como um desporto radical, pois envolve a existência de um certo perigo e adrenalina a correr pelas veias. Porém, tal ideía parece não ser a mais correcta, pois segundo João Graça “fazer montanhismo não é a mesma coisa que fazer Bungee jumping. A essência do montanhismo é ir para a serra fazer caminhadas, de forma a desanuviar o stress que tem acumulado durante a semana toda”.
O termo “escalada” e montanhismo, estão frequentemente ligados e a confusão pode ser grande. No que toca a escalda, Jonas começou por nos explicar que essa actividade “passa por escalar com cordas uma parede em rocha natural ou uma parede pré fabricada” para de seguida acrescentar que “no montanhismo pode ser simplesmente fazer uma caminhada por um trilho numa serra”.

Montanhismo (não) é desporto

Esclarecido o imbróglio, confrontamos o dirigente do Núcleo de Montanhismo de Espinho com a típica questão se estas actividades podem ser vistas como um desporto. Entre sorrisos, João Graça foi matreiro na resposta e frisou o facto de esta ser uma questão traiçoeira. Porém, a sua resposta não demorou a surgir. “O montanhismo não pode ser considerado como um desporto, visto que não existe competição.”, começou por proferir Jonas para acrescentar que “na escalada há competições e aí pode ser visto como um desporto, mas normalmente, o prazer de conseguir subir uma parede, é ultrapassado pelo prazer de ganhar uma competição, daí ser difícil explicar”.

O exemplo João Garcia

Enquanto decorria a conversa, não pudemos deixar de reparar em fotos do suprasumum do montanhismo em Portugal, João Garcia. Entre dois dedos de conversa, Jonas contou-nos que conheceu João Garcia por acaso. “É uma pessoa que transpira humildade. Uma vez estava a escalar em Sintra, e ele estava lá a dar corda a um rapaz. Não o conhecia, mas comecei a conversar e a dado ponto perguntei-lhe porque é que não estava a escalar, respondendo-me ele que: congelações e tal… Perguntei-lhe o que se passou, pois em Portugal era difícil ter lhe acontecido tal. Depois de tanta insistência ela lá acabou por explicar que foi numa montanha com mais de oito mil metros, que lhe gelou as pontas dos dedos. Falamos mais um pouco e ficamos amigos desde aí. Normalmente, trocamos correspondência e ele aparece por aí É um exemplo de pessoa.”
Mas não há muitas pessoas iguais a João Garcia. Porquê? Será que os escaladores portugueses não são tão bons como os estrangeiros? João Graça dá a resposta: “No presente, temos bons praticantes de escalada, mas nunca poderão ser profissionais pois o dinheiro não chega. Na França, por exemplo, existem muitos profissionais porque tem imensos apoios. O Garcia é um caso à parte, pois trabalhou imenso para chegar onde chegou e a vida dele é o montanhismo” rematou Jonas.

“Prazer de admirar paisagens maravilhosas”

Mas o que levará alguém a praticar montanhismo ou escalada? A resposta foi dada por um dos muitos atletas acreditados pela Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada que treinam na Nave Desportiva.
Sem rodeios, o jovem Nuno Miguel deu uma resposta adaptada à realidade a que ele viveu. “Para mim esta actividade é muito gratificante pois além de trabalhar o corpo, também trabalho a mente.”, começou por explicar o escalador para depois acrescentar “que não há nada no mundo que pague o prazer de subir a uma montanha que, aparentemente, parecia impossível. A juntar a tudo isto, tenho o prazer de admirar paisagens maravilhosas que só as vejo porque gastei litros de suor para escalar as rochas”, conclui Nuno Miguel.

Nuno Oliveira

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