Friday, March 30, 2007

Jornalismo… a quanto obrigas



A violência continua a fermentar no Médio Oriente. Mais uma vez, Israel e vizinhos estão num estado de guerra. O tempo parece dar razão aos que sempre julgaram que com o Hamas no poder, a paz seria mais difícil. Com isto, muitas das simpatias internacionais transferiram-se para o lado israelita, ou pelo menos hesitam defender uma organização tão pouco recomendável e considerada extremista. Quando um soldado israelita foi raptado, muitos acharam compreensível a resposta de Israel.
Mas será que um rapto vale uma guerra? Não perderá Israel a razão com uma resposta tão desproporcionada? Não estará assim a alienar as simpatias recém-conquistadas?
Parece que no Médio Oriente é necessário recorrer ciclicamente à violência para reavivar o gosto pela paz. Mas para que esta regresse é preciso conter a violência dentro de certos limites. É preciso que quem se converteu à guerra não chegue a tais extremos que se veja impossibilitado de se reconverter à paz.
A cobertura noticiosa de cenários de guerra, em que as deslocações dos jornalistas são bastante controladas, exige destes um forte sentido de auto controlo, para que não se transformem em meros retransmissores de propaganda alheia e para que não passem ao lado da realidade (um dos típicos problemas do jornalismo actual)
As reportagens feitas em zonas controladas pelo Hezbollah a que vamos assistindo parecem, regra geral, clones umas das outras. Têm todas declarações “espontâneas” de populares, a amaldiçoar a América e Israel. Têm todas gente aos saltos e aos berros, jurando querer devotar o resto das suas vidas à causa do Hezbollah. Têm todas as mesmas ambulâncias, convenientemente acabadas de partir rumo a mais uma emergência. São tão parecidas que parecem resultar do mesmo guião. A questão é: quem anda a escrever este guião?
Muitas das imagens que nos são servidas à hora do jantar não são espontâneas, nem resultam do trabalho apurado de um qualquer cameraman. Pelo contrário, são encenações da realidade servidas de bandeja aos repórteres, para que estes possam captar imagens apelativas sem muito trabalho.
Desconfio que os escrúpulos da maioria dos jornalistas não os impeçam de usar estas imagens. Como diz muito marialva a propósito do silicone no peito das senhoras, mais vale uma boa imitação do que um mau original. Neste caso, mais vale uma boa imagem encenada do que uma má imagem espontânea, sobretudo quando a primeira passa bem pela segunda.
Pode até acontecer que a encenação não se afaste muito da realidade. Pode até ser que um pouco de silicone televisivo torne a reportagem mais apelativa, a ainda por cima mais fácil de realizar. Mas esta opção tem riscos, riscos que os jornalistas deviam ponderar se vale a pena correr.


Nuno Oliveira

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